Tenho um filho gay e, tudo bem.

novembro 7, 2009

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Desde que meu filho me contou sobre a sua sexualidade eu senti que deveria ajuda-lo, logo percebi que seria mais uma enorme escada com seus muitos degraus para subirmos juntos, eu, meu marido e nosso filho. Comecei a ler, me informar, entrei para um grupo de pais de São Paulo, o GPH, e aprendi muito, participando da troca de emails entre mães de vários lugares do Brasil. Entrei nesse grupo porque precisava de ferramentas e apoio para poder ajudar meu marido. Foi por isso que entrei, comecei a participar e logo percebi que eu em pouco mais de um mês já estava num processo de aceitação bastante adiantado. No grupo haviam mães participando há 1, 2 ou mais anos e que conseguiam reviver o sofrimento da descoberta da sexualidade dos filhos dessa forma ajudando outras mães. Mas eu não conseguia fazer isso, e sofria. Vejam bem, eu me sentia mal por não poder ajudar aquelas mães, porque eu não sofri por ter um filho gay e por isso não sabia como ajudar.

Me falaram lá no grupo que eu tinha perfil militante. Estranhei e confesso que não me sinto uma ativista, porque não busco entender de leis, não estudo, embora eu apoie no que posso, mas não levanto bandeira. Na verdade, estou em processo para acertar o meu caminho na luta pela aceitação dos diferentes jeitos de amar, sem rotular. Minha luta é pela busca do respeito da individualidade. Se não faz mal a ninguém, então por que não pode existir? É nisso que acredito e é pelo caminho do amor que quero abrir portas e ver as pessoas felizes.

Meu filho entrou no quarto, numa noite de quinta-feira no final do mês de maio de 2008, como eu já contei aqui também, dizendo assim: mãe, preciso te contar uma coisa; eu fiquei com um menino, e a gente está namorando. Eu não queria ouvir, dei as costas pra ele na cama, falei do que adianta a terapia que você está fazendo? Ele me respondeu coisas confusas, dizendo que foi pela criação perto das mulheres da família, pela ausência do pai, que não queria saber de ficar com mulheres, etc. Confesso que no começo pouco sofri porque ele soube me ajudar a entender sobre a sua sexualidade.

Depois de 20 dias eu contei para o meu marido e caí no fundo do poço junto com ele, choramos, ele se culpava, eu o ajudava a entender. Fiquei o mês de julho praticamente inteiro sem trabalhar, chorando no trabalho, entrei para o grupo de pais buscando ajuda e lia tudo o que me mandavam. Fui me tornando forte e logo mais ajudava do que recebia ajuda no GPH. Ficava ausente por alguns períodos e depois de alguns meses me desliguei do grupo. Nesse meio tempo o namoro do meu filho foi acontecendo e o menino frequentava nossa casa. Chegava até a conversar com meu marido na sala e se sentia muito bem aqui, acolhido e amado, pois não tinha apoio em casa. As coisas iam caminhando.

Ele saiu numa noite de domingo da nossa casa e quando chegou em casa me escreveu um depoimento no orkut que guardei:

“Lxxx! Você não tem a idéia de quanto eu sou feliz e realizado por você ter aceitado, ou estar tentando aceitar o Gxxx. No dia em que saí da sua casa, fui embora pensando e imaginando como seria mais fácil pra mim, se tivesse uma mãe que apoiasse a minha situação também. Mesmo assim, entendo, e sei que não deve ser fácil pra ela também.
Minha família “esqueceu” ou pelo menos tentam esquecer isso, não se interessam, e nem demonstram vontade de me ajudar com isso. Não é confortável escutar que você é um desgosto todos os dias, e que desejavam outra história para um filho. Dizem que aceitam, mas ao mesmo tempo, não querem saber de problemas relacionados a isso.
Não sei se a mãe está preparada para ouvir alguém, eu ainda não sei qual seria a reação dela. Obrigado de coração por tudo o que você está fazendo. Pode ter certeza também que você, a Gxxx e o Gxxx são muito especiais na minha vida. 😀 fico muito emocionado em saber que existem pessoas assim, ainda mais sendo próximos.
beijos, Vxxx.”

Leio e releio e me emociono sempre!
Fiquem bem e me escrevam se precisarem.

Muitos beijos da mamis.

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14 Responses to “Tenho um filho gay e, tudo bem.”

  1. Emanuel Says:

    Fiquei muito feliz em ler seu depoimento. É muito bacana ver o esforço em entender algo tão difícil de explicar. Mesmo porque, ainda não sei se se explica. (Alguém precisa se explicar por ser hétero? Negro? Cristão ou agnóstico?)
    Felicidades a você e sua família.

  2. intrepidamae Says:

    Oi Emanuel! Obrigada por comentar querido.
    Me esforço bastante mesmo e para poder ajudar.

    Também penso que não deveria ter que explicar, mas ainda é necessário sim. LGBT’s tem um longo caminho, anos ainda pela frente para se entender e fazer-se entender.
    Obrigada mais uma vez e sempre que quiser apareça por aqui.
    Um beijo.

  3. Bruna Says:

    Eu também fiquei emocionada lendo o depoimento no orkut do namorado do seu filho. Espero ser uma mãe compreensiva como você.

  4. Jean F. Says:

    eu estou no mesmo pé que o Vxxx.
    Minha mãe nunca vai me aceitar.
    Me resignei e desisti de recolher os cacos da nossa relação.

    Mas é bom saber que existem pessoas como você.

    Obrigado.

    • intrepidamae Says:

      Oi querido Jean,
      Dizer que nunca sua mãe vai te aceitar não é um pouco de exagero? Quem sabe, com jeitinho, você vai tentando conversar com ela. Mas, também pense na possibilidade de dar um tempo pra ela, um tempo para ela te aceitar, porque não é fácil querido. Mesmo eu que estou aqui te escrevendo, tentando ajudar, por vezes penso no futuro do meu filho e me dá um aperto no coração. A revolta da sua mãe pode ser pela idealização que fez para o seu futuro, pode ser pelos valores que ela acredita, pode ser por desconhecimento das questões da sexualidade, talvez ela pense que se afastando de você fará com que você repense e “volte a ser hetero”, enfim, ela pode estar pensando mil coisas. Por isso tenha paciência.
      Um beijo.

  5. Giovanna Rivelli Says:

    Vc escreve com muita verdade, parecia mesmo que os sentimentos eram comuns a nós duas.
    Estou certa que vc ajudará muitas pessoas desta forma.
    Continue esse trabalho lindo.
    Parabéns!
    Beijos,
    Giovanna.

    • intrepidamae Says:

      Querida Gi!
      Saudades de você.
      Obrigada por comentar amada, e saiba que os emails que recebo do seu grupo em muito me ajudam. E me permita pedir que sempre que tiver algo que possa contribuir com meus textos você encaminhe pra mim. E também, quem sabe um depoimento dessa intrépida mamãe Giovanna aqui no blog? Certamente os leitores iriam amar!
      Um super beijo.


  6. .

    É só precis um pouco de vontade, um tanto só de boa vontade e tudo fica no seu devido lugar…quem em dera ter pais assim!

    Lxxxx, o Gxxxxxxx é muito sortudo em ter uma mãe como você!

    • intrepidamae Says:

      Oi querido!
      Eu concordo com você.. dia desses assisti a uma palestra aqui em Curitiba, de uma excelente psicóloga, a Maria Rafart, e na ocasião ela falava sobre empatia. Ser empático é se colocar no lugar do outro, é “calçar o sapato do outro”, é tentar entender como o outro pensa, e só a empatia é que leva ao respeito mútuo. Todos temos problemas, diferenças, e agindo dessa forma conseguimos entender.
      Um beijinho pra você.

  7. sirla Says:

    Semana passada veio uma colega minha aqui em casa, do nada disse que meu filho é gay, já desconfiava, mas foi um choque mto grande ouvir isso, ainda não falei com meu filho, não tive coragem, e acho que jamais vou falar com meu marido, acho que ele vai morrer de tanta tristeza, e até renegar nosso filho, mas por outro lado tenho medo de alguém chegar e dizer para ele que nosso filho é gay,não sei o que fazer, por favor me ajude a resolver isso.

  8. Eliane Says:

    Fico muito, mas muito ainda duvidosa da aceitação de uma mãe a esta situação. Pra ser gay pode haver várias teorias: genéticas (problemas hormonais, problemas nos órgãos…) adquiridas (problemas emocionais, ambiente…), idiopáticas (sem causa definida ou talvez uma somatória delas). Qualquer que seja a causa, acredito que uma mãe deva amar sim seu filho e não abandoná-lo. Mas orar, orar muito. Pois nas leis Cristãs, o homem e a muher foram feitos para um processo de perpetuação da espécie. Acredito sim, que cada situação de nossas vidas formam gigantes teias de um processo bem complexo, mas que pode haver dissolução.
    O querer voltar para o heterossexualismo dependerá do próprio gay antes de tudo, sendo amparado e apoiado pela família. ACEITAR O FILHO NÃO SIGNIFICA CONCORDAR COM ESTA SITUAÇÃO.
    Para o gay voltar para o heterossexualismo creio que será muito mas muito difícil, mas não impossível. É quase como morrer as células corporais para que possa nascer novamente um novo corpo formado de novas memórias (construídas ao longo do tempo sobre as metáforas da carne e mente). Mas repetindo, nada é impossível para Deus.
    Em nossa vida temos que ter limites do querer a conduta desVIADA, Torna um problema sim para a família principalmente para a Mãe. Acredito que o Gay ultrapassa as regras sempre. É questionador por natureza. E não gosta de limites. E na vida é nescessário termos estes limites.
    Se quebrar as regras, não ter limites para o sexo for assim tão normal, então outras brechas se abrem POIS SE O IMPORTANTE É SER FELIZ, INOSCENTEMENTE. O que nós dizemos de um relacionamento triplo ou mais? Se amar é tão lindo e inocente sempre sendo importante a felicidade o que me dizem sobre pais que transan com seus filhos e no seu íntimo fazem porque os amam? Homens e mulheres que transam com animais por que se sentem felizes?
    Sabemos que o prazer carnal podemos sim conseguir de diversas formas e com qualquer objeto e pessoa, só que há sim um limite. Talzez para muitos, isso esteja na consciência de cada um. E quem garante que esta coscniência tem consciência e dissernimento do que que é limite?
    Encontramos registros de limites no livro sagrado. Qualquer que seja a religião adotada, percebemos que existem sim os limites para nossas atitudes.
    Só proque descobriram o prazer carnal e levam isso como inoscência “SEM PREJUDICAR A NINGUÉM”, não significa que isso é ser normal.
    Acredito também que o ato da mentira, inveja, difamação, traição, sejam muito piores do que ser gay.
    Acredito sim que para cada cabeça uma sentença. QUE DEUS TENHA PIEDADE DE TODOS NÓS PARA QUE COLOCAMOS LIMITES. LIMITES NA HORA DE AMAR, NA HORA DE FALAR MAL DOS OUTROS, NA HORA DE PREJUDICAR AOS OUTROS E ASSIM VAI. Embora ser gay para mim seja um erro, não é mais errado do qualquer outro pequeno erro que todo o ser humano tenha.
    No entanto pra eu que sou mãe isso é muito, mas muito doloroso, triste…

    NÃO É FÁCIL… ESTOU TENTANDO…

    • intrepidamae Says:

      Oi Eliane,
      Então querida, uma das coisas que acabei fazendo quando meu filho me contou foi sair da religião que eu seguia, que era católica.
      Depois de uma busca por algo em que acreditar novamente, encontrei a filosofia clássica da Nova Acrópole, e com eles aprendi que são as almas, oriundas do Deus criador, uno e completo, que se encontram para uma missão nessa encarnação. Foi essa a explicação que mais acalmou meu coração. As almas não tem sexo, então por isso a atração, por essa energia que nos une a todos, humanos, entre nós e com Deus.

      Espero ter lhe ajudado.

      Caso queira pesquisar mais e participar para conhecer, a Escola de Filosofia Nova Acrópole tem sede em várias cidades.
      O site é http://www.nova-acropole.org.br/

      Um beijo carinhoso, compadecido da sua angústia.
      Intrépida Mãe.


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