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Desde que meu filho me contou sobre a sua sexualidade eu senti que deveria ajuda-lo, logo percebi que seria mais uma enorme escada com seus muitos degraus para subirmos juntos, eu, meu marido e nosso filho. Comecei a ler, me informar, entrei para um grupo de pais de São Paulo, o GPH, e aprendi muito, participando da troca de emails entre mães de vários lugares do Brasil. Entrei nesse grupo porque precisava de ferramentas e apoio para poder ajudar meu marido. Foi por isso que entrei, comecei a participar e logo percebi que eu em pouco mais de um mês já estava num processo de aceitação bastante adiantado. No grupo haviam mães participando há 1, 2 ou mais anos e que conseguiam reviver o sofrimento da descoberta da sexualidade dos filhos dessa forma ajudando outras mães. Mas eu não conseguia fazer isso, e sofria. Vejam bem, eu me sentia mal por não poder ajudar aquelas mães, porque eu não sofri por ter um filho gay e por isso não sabia como ajudar.

Me falaram lá no grupo que eu tinha perfil militante. Estranhei e confesso que não me sinto uma ativista, porque não busco entender de leis, não estudo, embora eu apoie no que posso, mas não levanto bandeira. Na verdade, estou em processo para acertar o meu caminho na luta pela aceitação dos diferentes jeitos de amar, sem rotular. Minha luta é pela busca do respeito da individualidade. Se não faz mal a ninguém, então por que não pode existir? É nisso que acredito e é pelo caminho do amor que quero abrir portas e ver as pessoas felizes.

Meu filho entrou no quarto, numa noite de quinta-feira no final do mês de maio de 2008, como eu já contei aqui também, dizendo assim: mãe, preciso te contar uma coisa; eu fiquei com um menino, e a gente está namorando. Eu não queria ouvir, dei as costas pra ele na cama, falei do que adianta a terapia que você está fazendo? Ele me respondeu coisas confusas, dizendo que foi pela criação perto das mulheres da família, pela ausência do pai, que não queria saber de ficar com mulheres, etc. Confesso que no começo pouco sofri porque ele soube me ajudar a entender sobre a sua sexualidade.

Depois de 20 dias eu contei para o meu marido e caí no fundo do poço junto com ele, choramos, ele se culpava, eu o ajudava a entender. Fiquei o mês de julho praticamente inteiro sem trabalhar, chorando no trabalho, entrei para o grupo de pais buscando ajuda e lia tudo o que me mandavam. Fui me tornando forte e logo mais ajudava do que recebia ajuda no GPH. Ficava ausente por alguns períodos e depois de alguns meses me desliguei do grupo. Nesse meio tempo o namoro do meu filho foi acontecendo e o menino frequentava nossa casa. Chegava até a conversar com meu marido na sala e se sentia muito bem aqui, acolhido e amado, pois não tinha apoio em casa. As coisas iam caminhando.

Ele saiu numa noite de domingo da nossa casa e quando chegou em casa me escreveu um depoimento no orkut que guardei:

“Lxxx! Você não tem a idéia de quanto eu sou feliz e realizado por você ter aceitado, ou estar tentando aceitar o Gxxx. No dia em que saí da sua casa, fui embora pensando e imaginando como seria mais fácil pra mim, se tivesse uma mãe que apoiasse a minha situação também. Mesmo assim, entendo, e sei que não deve ser fácil pra ela também.
Minha família “esqueceu” ou pelo menos tentam esquecer isso, não se interessam, e nem demonstram vontade de me ajudar com isso. Não é confortável escutar que você é um desgosto todos os dias, e que desejavam outra história para um filho. Dizem que aceitam, mas ao mesmo tempo, não querem saber de problemas relacionados a isso.
Não sei se a mãe está preparada para ouvir alguém, eu ainda não sei qual seria a reação dela. Obrigado de coração por tudo o que você está fazendo. Pode ter certeza também que você, a Gxxx e o Gxxx são muito especiais na minha vida. 😀 fico muito emocionado em saber que existem pessoas assim, ainda mais sendo próximos.
beijos, Vxxx.”

Leio e releio e me emociono sempre!
Fiquem bem e me escrevam se precisarem.

Muitos beijos da mamis.

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Como contar para minha mãe

outubro 27, 2009

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“Você tem que me amar! Você tem que me amar!”

“Mãe Sempre Sabe? Mitos e Verdades sobre Pais e seus Filhos Homossexuais” é o nome de um livro da Edith Modesto, a primeira mãe a me ajudar com a aceitação da sexualidade do meu filho, e não é a toa. Sempre fica aquela dúvida, será que minha mãe desconfia, pois ela é tão próxima a mim? Ou será que se eu deixar pistas, quem sabe um bilhete da minha namorada, que ela pensa ser minha melhor amiga, então ela logo vai ler e poderemos conversar? Como ela irá reagir? O que será que vai me falar?

Amados, a única coisa que eu posso dizer a vocês com certeza é que não existem certezas, padrões, que nem toda a mãe sabe, que tem mãe que nem ao menos desconfia, tem mãe que quando sabe o mundo dela desaba, entra em depressão, poderá ficar sem falar com você, poderá te agredir física ou verbalmente (muitas palavras doem mais que tapas), poderá te expulsar de casa. Ou quem sabe ela poderá querer te ouvir e nessa hora você deverá estar preparado para ser um pouco mãe ou pai da sua mãe, para poder acalma-la dizendo coisas que você bem sabe sobre a sua sexualidade. Vamos relembrar?

– quem é LGBT (lésbica, gay, bissexual ou transexual) nasceu com essa condição, portanto é natural;

– ninguém obriga ninguém a ser homo, bi e nem ao menos travesti ou transexual, não existe uma motivação externa para definir a sexualidade, portanto é espontâneo;

– nunca nos pergutaram durante nossa educação, na escola, na catequese, entre amigos, se eu queria ser hetero ou homossexual, portanto não é opção sexual, mas é a sua orientação sexual;

– o seu jeito de amar não interfere no seu caráter, portanto ser LGBT não é sinônimo de ausência de valores;

– que existe o gradiente da sexualidade, que você vai saber melhor em livros ou comunidades especializadas no orkut, e que bem explicam o porquê de existirem as pessoas LGBT, e não somente homossexuais; e isto quer dizer que você poderá ser bem afeminado, muito masculinizada, talvez irá querer se relacionar com meninos bem masculinos como você, ou com meninas de cabelo curtinho e nada de batom embora você adore a cor rosa e umas plumas, assim como aquele seu amigo gay ator de teatro, ou a sua amiga traveca que é um verdadeiro luxo!

Lembre que o gay estereotipado está na mídia para complicar a vida da gente e dificultar em muito as coisas. Os preconceitos sociais e as cobranças sociais virão a galope rondar os pensamentos da sua mãe como e agora? Meu filho vai virar uma bicha louca! Minha filhinha linda vai parar de usar roupas femininas! Onde foi que eu errei?

Talvez ela se culpe, talvez ela culpe seu pai. Poderá dizer que foi culpa dos seus amigos, essa péssima turma com quem você anda!  Ela poderá achar que você está fazendo isso para chamar a atenção, para atrapalhar a vida dela. Nessa hora é que você deve pensar estou preparado? Estou com confiança em mim mesmo, já me aceito como lésbica? Quem sabe enquanto sua mãe se afasta, o que geralmente acontece, pois vemos vocês como estranhos (eu tive que me acostumar com um novo filho que nascia!), você se prepara para conversas de entendimento que poderão vir, ou que ao menos te fortalecerão para encarar todas as saídas do armário da sua jornada. Tenha paciência com a sua mãe, aprendendo a conversar com ela. Vocês precisam um do outro.

Estive pensando sobre como devemos nos sentir orgulhosos com as mudanças que fizemos ocorrer nas dinâmicas das nossas famílias. Eu fui mãe aos 14 anos. Minha mãe também perguntou onde foi que eu errei? E hoje eu vejo que ela errou quando não me deu atenção, quando esqueceu que ao colocar uma filha no mundo a fez se tornar uma pessoa responsável por outra pessoa. Ela teve que repensar muuuita coisa na sua própria vida quando eu contei que estava grávida: repensar o casamento com meu pai, repensar a educação dos meus irmãos mais novos, repensar como me educaria dali para frente. Sem dúvida fiz dela uma pessoa melhor.

“Não compro afeto.” Essa foi uma frase do Evando Santo (Christian Pior), que vi num dos seus posts (tá bom, a maioria é gozação, mas nesse ele falava muito sério) do blog Ovulando. No texto ele dizia, nas entrelinhas, para sua família algo como agora que estou famoso vocês me procuram, mas podem esquecer, porque não pago por afeto. Cito isso para você pensar nas perdas que ocorrem quando assumir sua sexualidade. Não é nada fácil. Essa perda de quem se ama pode começar dentro da sua própria casa, com quem mais teria que te apoiar nesse mundo, pois foi quem te colocou no mundo e teoricamente seria responsável por você, ou pelo menos para amar você incondicionalmente.

Me lembrei agora da Marise, a segunda mãe a me ajudar mas que é a primeira no meu coração, repetindo em umas das nossas reuniões de mães de homossexuais que os filhos só sabem dizer “você tem que amar, você tem que amar”, como o Baby Sauro da TV, que saiu berrando assim que quebrou a casca do ovo “você tem que me amar!” E os pais não conseguem sentir isso plenamente, por diversos fatores, que só quem é pai ou mãe entende o que estou dizendo. O que podemos fazer, que foi o que eu fiz e conheço muitas outras mães que fizeram, é reaprender a amar vocês diante desse novo referencial de filho que se apresenta. Temos que conhecer sobre a sexualidade, mais do que já sabemos, ou tudo o que ainda não sabemos que é o caso da maioria das mães de LGBT.

Finalmente querido, você pode pensar em adotar uma nova mãe, ou uma mãe substituta, para essa fase de afastamento que você pode estar passando, que já passou mas que ainda precisa de um colo, ou que ainda irá passar. E a sua mãe vai te acolher novamente, tenho certeza disso. Mas se na pior das hipóteses não acontecer, como na família do Evandro Santo, não se preocupe, não é culpa sua e tem mãe que merece mesmo perder o(a) filho(a). Concorda?

Um beijo carinhoso.

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Demorei, mas agora sim vou contar sobre a minha aventura na primeira vez, que a gente nunca esquece, que participei de uma Parada da Diversidade.

No início do meu processo de aceitação da homo do meu filho, eu ouvia comentários diversos sobre a sexualidade humana, sobre gays, lésbicas, trans, sobre preconceito, sobre aceitação e sobre as “paradas gay”. Sobre as paradas eu acabei por ter uma imagem “ruim” pelas opiniões que ouvia, até mesmo falando para amigas que isso era tudo bagunça, que era ruim para a luta contra o preconceito pois as pessoas não se sensibilizariam vendo essa bagunça toda, que eu não apoiava, enfim, eu pensava com a cabeça dos outros.

Quando me aproximei do Dignidade, pois queria de alguma forma ajudar o movimento LGBT, conheci pessoas maravilhosas, sofridas, batalhadoras, que nem papel higiênico por vezes tem na sede, pois os recursos são bastante escassos. Pessoas que doam seu tempo pela conquista dos direitos de uma massa gigante de brasileiros, cidadãos marginalizados. Acolhem quem sofre violência, ajudam com apoio jurídico, ouvem para amenizar a pressão psicológica, oferem assistência social, organizam a Parada da Diversidade, se unem em Fórum para buscar a diminuição da violência e criminalização da homofobia, e além disso são homens e mulheres com suas dores, agústias, vida social,  empregos, ideais, alegrias e com um brilho nos olhos que é o amor que transborda dos seus corações. Me sinto honrada por estar próxima deles.

Eu tinha o sonho inicial de ajudar os jovens, pela internet, escrevendo pra eles, para ajuda-los com a auto-aceitação e com a aceitação familiar. Não sabia direito por onde começar, mas sabia que precisava começar. O Dignidade precisava de alguma ajuda, com coisas que estavam ao meu alcance e que se encaixavam no meu tempo, como material de criação gráfica e ajudar com o novo site. Estou dentro! O sonho de ajudar está se tornando realidade, pois me aproximo cada vez mais deles.

Então fiz o flyer do Fórum GDS para a Parada da Diversidade, com a ajuda de duas amigas mais que especiais, Ana e Indi, e consegui o apoio da gráfica OPTA para a impressão. Que felicidade! Veio o pedido de ajuda lá do querido Igor do Jovem Dignidade, e eu consegui ajudar. Entregamos para as pessoas nas baladas e nas ruas, o flyer que chamava o “sinal verde para a liberdade”. Conheci o Marcio Marins, presidente da APPAD do sábado que antecedia a Parada e ganhei uma camiseta para participar estampando meu apoio. Não pude participar das reuniões da organização da Parada, mas no domingo 27/09 eu estava cedinho lá, disponível para o que precisassem. Então, eu ganhei a “camiseta laranja”, a cor dos organizadores do evento! Me senti honrada. Dei carona para a praça da concentração para o Igor, Alberto, Juliana e aquela moça linda que espero possa me perdoar por esquecer seu nome. Eles estavam nervosíssimos, pois dali a pouco começaria o grande evento curitibano pela diminuição do preconceito contra LGBT. Ajudei com o que precisaram para os últimos detalhes e corri em casa almoçar.

Filhote voltou para lá comigo. Estacionamos no Mueller e de lá de cima tirei as primeiras fotos da concentração. Tudo lindo, cheio de gente e colorido. Descemos e fomos para o meio do povo, vimos o pronunciamento das autoridades e a contagem regressiva. Tudo perfeito!

a concentração

a concentração

Marisinha, amiga querida e mãe também, mostrando sua força

Amiga querida e mãe também, mostrando sua força

Deputado Dr Rosinha, Toni Reis - presidente da ABGLT e demais autoridades abrindo o evento

Deputado Dr Rosinha, Toni Reis - presidente da ABGLT e demais autoridades abrindo o evento

Rafa Wiest, presidente do Dignidade, estava lindíssima!

Rafa Wiest, presidente do Dignidade, estava lindíssima!

Mais fotos do estacionamento do shopping. Eu estava maravilhada de ver tanta gente unida pelos seus direitos. Voltamos para a avenida Cândido de Abreu e o Igor, presidente do Voz/ Jovem Dignidade chamou para subirmos no Trio Magia, o carro principal, de abertura, e que levava os grandes nomes paranaenses da luta LGBT. De lá eu não saí mais, e só vi alegria no rostinho das pessoas em volta. Não vi violência, mas sim famílias com seus filhos. Não vi baixaria, mas sim pessoas que se amam podendo demonstrar carinho publicamente. Não vi drogas, mas sim muita adrenalina nas veias de pessoas felizes.  Toni, David, Rafa, Igo, Marcio, Marli, Igor e seus amigos, meus parabéns por tudo o que vocês conseguiram nesse dia 27/09, em Curitiba. A festa estava maravilhosa.

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"tudo junto e misturado" - viva a diversidade!

"tudo junto e misturado" - viva a diversidade!

Espero que tenham gostado desse post.

Um beijo carinhoso.

Essas imagens são da campanha contra a discriminação, criada pela agência holandesa imagine’.  Mostra um pouco da angústia vivida pelos nossos conhecidos lés, gays, bi, e ainda mais pelos queridos trans e travestis, por não poderem ser quem realmente são, por terem que esconder seu verdadeiro eu.

Logo que soube do meu filho me coloquei no lugar dele, na tentativa de imaginar pelo que ele deve ter passado e ainda passa. O papel dos pais é decisivo, e podemos ler mais sobre isso nesse artigo aqui, escrito pelo filósofo Paulo Ghirardelli Jr., perto do dia dos pais, comemorado nesse mês. Mas não é fácil ser pai e mãe de um filho diferente. Não é mesmo.

A aceitação para alguns é mais fácil, mas para a maioria é sofrida e leva tempo. E sabe o porquê? Porque nenhum pai ou mãe foi preparado para ter/educar um filho ou uma filha homossexual. Isso é muito bem lembrado pelo Ghirardelli nesse texto, uma vez que os pais imaginam os filhos como uma extensão de si próprios. Quando a mulher engravida, ou antes até, os sonhos já começam junto com as idealizações do futuro desse filho. Se for homem, será o “pegador”, terá uma carreria maravilhosa, casará depois de viver uma plena juventude do macho ideal. Se for menina, será educada para ser boazinha, super feminina, casar bem (bem = marido rico), gerar filhos e educa-los da mesma forma que a mamãe fez. Tudo igualzinho, sem sair dos padrões. E então, se o filho que cresceu é diferente disso, começa o sofrimento de ambos os lados.

Inicia-se um aprendizado. Os pais tem que olhar para um outro filho, e entenderem que é uma vida em separado, que não tem total poder sobre esses novos seres. A idealização do que seria o futuro desse filho terá que ser repensada e reaprendida. É um longo caminho a ser percorrido. Filhos, tenham paciência com seus pais, pois talvez eles sejam como os pais do texto do Ghirardelli, pais que imaginaram vocês sendo a extensão deles, e mais ainda,  sendo tudo o que eles não conseguiram ser. Se fosse possível prever, pais assim jamais deveriam ter se tornado pais.

Em seu texto, o autor nos diz que “a pessoa que quer ser pai deveria, antes de ter filhos, olhar para o espelho e falar: não sou deus, portanto, o que vier como filho, não poderá ser alterado por mim, e terei de não só aceitar, mas amar.” Nossa sociedade está doente e um dos causadores dessa doença é o altruísmo dos pais, do “eu sou” e “meu filho é”, e quando esse pai não pode falar o que o filho é, a doença se agrava, podendo ser fatal. O preconceito vem disso, do desconhecimento, da impaciência e da intolerância com o que é diferente do que para eles seria o ideal.Não querer pensar, não querer aprender.

Vocês são guerreiros, são heróis, são seres evoluídos, vão ensinar eles a repensar e a reaprender. Mas tenham paciência, e procurem ajudar. Eles precisam de vocês. Mas não angustie se não for bem sucedido nessa tarefa. Se você tentou e não resultou em nada, não se preocupe porque não é só sua essa responsabilidade. Eles perderam esse filho. Eles não merecem esse filho.

Beijos da mommy.

Se descobrindo…

abril 30, 2009

Olá queridos..
Queria falar um pouco sobre a descoberta da sexualidade, pois conversando ontem com o meu filho sobre o seu namorado e sobre suas vontades e desejos, acabamos falando sobre as diferentes formas de se perceber diferente, ou melhor, os diferentes tempos de se descobrir diferente. Pode acontecer no final da infância, como foi com ele, pois se percebia diferente dos colegas da escola já depois dos seus 10 anos de idade. Acabou não tendo nenhuma experiência, penso que por não ter tido oportunidade. Outros percebem seus desejos na adolescência e tratam de buscar o seu caminho como podem: talvez negando, talvez vivenciando, talvez correndo riscos, talvez se escondendo.
Meu filho me pediu para fazer terapia quando tinha 13 anos. Ele mudou de colégio com essa idade e sofreu muito com a conquista de novos amigos e com as implicâncias dos não tão amigos. E ela era de poucos amigos, sempre foi, desde a infância. Ele me disse: quero entender o porquê sou diferente dos outros, porque não gosto de futebol, quero saber porquê minha cabeça é assim, porque tenho esses pensamentos. Alguns anos antes, ele visitou sites de pornografia masculina, escondido, mas vimos no histórico do navegador. Conversei com ele numa boa, mas não queria acreditar, então “concordamos” que era porque ele estava entendendo como as coisas funcionavam. Passou. Ele nunca ficou com nenhuma menina até hoje. Quando contou que era gay me disse: mãe, você precisa ficar com mulher para saber que não gosta? E foi assim, simples, ele nunca ficou com mulher e diz que nunca vai ficar.
Já com outros jovens pode ser diferente, pois cada um tem o seu tempo. Tenho um amigo que chegou a noivar, mas com 29 anos disse para a moça que não queria mais engana-la e nem enganar a si próprio, então assumiu a sua homossexualidade e hoje é casado com seu companheiro há mais de 10 anos.
Entender e aceitar o modo que cada um escolhe, ou que a vida determina, para ser feliz é uma tarefa nada fácil, pois o estranhamento que não conseguimos evitar quando vemos uma troca de carinho entre pessoas ditas diferentes é comum a todos nós. O que pode acontecer é que nos obrigamos a olhar, e nos acostumamos. Seja pelo amor aos nossos filhos, seja pela convivência tolerante com algum colega, seja pelo respeito às individualidades de cada ser humano, seja pelo espaço que também é do casal de lésbicas na mesa do restaurante. Cada um sofreu e sofre as delícias e amarguras de uma sociedade que cada vez mais convive com a diversidade. Cada um a seu tempo.