Como contar para minha mãe

outubro 27, 2009

dinossauro

“Você tem que me amar! Você tem que me amar!”

“Mãe Sempre Sabe? Mitos e Verdades sobre Pais e seus Filhos Homossexuais” é o nome de um livro da Edith Modesto, a primeira mãe a me ajudar com a aceitação da sexualidade do meu filho, e não é a toa. Sempre fica aquela dúvida, será que minha mãe desconfia, pois ela é tão próxima a mim? Ou será que se eu deixar pistas, quem sabe um bilhete da minha namorada, que ela pensa ser minha melhor amiga, então ela logo vai ler e poderemos conversar? Como ela irá reagir? O que será que vai me falar?

Amados, a única coisa que eu posso dizer a vocês com certeza é que não existem certezas, padrões, que nem toda a mãe sabe, que tem mãe que nem ao menos desconfia, tem mãe que quando sabe o mundo dela desaba, entra em depressão, poderá ficar sem falar com você, poderá te agredir física ou verbalmente (muitas palavras doem mais que tapas), poderá te expulsar de casa. Ou quem sabe ela poderá querer te ouvir e nessa hora você deverá estar preparado para ser um pouco mãe ou pai da sua mãe, para poder acalma-la dizendo coisas que você bem sabe sobre a sua sexualidade. Vamos relembrar?

– quem é LGBT (lésbica, gay, bissexual ou transexual) nasceu com essa condição, portanto é natural;

– ninguém obriga ninguém a ser homo, bi e nem ao menos travesti ou transexual, não existe uma motivação externa para definir a sexualidade, portanto é espontâneo;

– nunca nos pergutaram durante nossa educação, na escola, na catequese, entre amigos, se eu queria ser hetero ou homossexual, portanto não é opção sexual, mas é a sua orientação sexual;

– o seu jeito de amar não interfere no seu caráter, portanto ser LGBT não é sinônimo de ausência de valores;

– que existe o gradiente da sexualidade, que você vai saber melhor em livros ou comunidades especializadas no orkut, e que bem explicam o porquê de existirem as pessoas LGBT, e não somente homossexuais; e isto quer dizer que você poderá ser bem afeminado, muito masculinizada, talvez irá querer se relacionar com meninos bem masculinos como você, ou com meninas de cabelo curtinho e nada de batom embora você adore a cor rosa e umas plumas, assim como aquele seu amigo gay ator de teatro, ou a sua amiga traveca que é um verdadeiro luxo!

Lembre que o gay estereotipado está na mídia para complicar a vida da gente e dificultar em muito as coisas. Os preconceitos sociais e as cobranças sociais virão a galope rondar os pensamentos da sua mãe como e agora? Meu filho vai virar uma bicha louca! Minha filhinha linda vai parar de usar roupas femininas! Onde foi que eu errei?

Talvez ela se culpe, talvez ela culpe seu pai. Poderá dizer que foi culpa dos seus amigos, essa péssima turma com quem você anda!  Ela poderá achar que você está fazendo isso para chamar a atenção, para atrapalhar a vida dela. Nessa hora é que você deve pensar estou preparado? Estou com confiança em mim mesmo, já me aceito como lésbica? Quem sabe enquanto sua mãe se afasta, o que geralmente acontece, pois vemos vocês como estranhos (eu tive que me acostumar com um novo filho que nascia!), você se prepara para conversas de entendimento que poderão vir, ou que ao menos te fortalecerão para encarar todas as saídas do armário da sua jornada. Tenha paciência com a sua mãe, aprendendo a conversar com ela. Vocês precisam um do outro.

Estive pensando sobre como devemos nos sentir orgulhosos com as mudanças que fizemos ocorrer nas dinâmicas das nossas famílias. Eu fui mãe aos 14 anos. Minha mãe também perguntou onde foi que eu errei? E hoje eu vejo que ela errou quando não me deu atenção, quando esqueceu que ao colocar uma filha no mundo a fez se tornar uma pessoa responsável por outra pessoa. Ela teve que repensar muuuita coisa na sua própria vida quando eu contei que estava grávida: repensar o casamento com meu pai, repensar a educação dos meus irmãos mais novos, repensar como me educaria dali para frente. Sem dúvida fiz dela uma pessoa melhor.

“Não compro afeto.” Essa foi uma frase do Evando Santo (Christian Pior), que vi num dos seus posts (tá bom, a maioria é gozação, mas nesse ele falava muito sério) do blog Ovulando. No texto ele dizia, nas entrelinhas, para sua família algo como agora que estou famoso vocês me procuram, mas podem esquecer, porque não pago por afeto. Cito isso para você pensar nas perdas que ocorrem quando assumir sua sexualidade. Não é nada fácil. Essa perda de quem se ama pode começar dentro da sua própria casa, com quem mais teria que te apoiar nesse mundo, pois foi quem te colocou no mundo e teoricamente seria responsável por você, ou pelo menos para amar você incondicionalmente.

Me lembrei agora da Marise, a segunda mãe a me ajudar mas que é a primeira no meu coração, repetindo em umas das nossas reuniões de mães de homossexuais que os filhos só sabem dizer “você tem que amar, você tem que amar”, como o Baby Sauro da TV, que saiu berrando assim que quebrou a casca do ovo “você tem que me amar!” E os pais não conseguem sentir isso plenamente, por diversos fatores, que só quem é pai ou mãe entende o que estou dizendo. O que podemos fazer, que foi o que eu fiz e conheço muitas outras mães que fizeram, é reaprender a amar vocês diante desse novo referencial de filho que se apresenta. Temos que conhecer sobre a sexualidade, mais do que já sabemos, ou tudo o que ainda não sabemos que é o caso da maioria das mães de LGBT.

Finalmente querido, você pode pensar em adotar uma nova mãe, ou uma mãe substituta, para essa fase de afastamento que você pode estar passando, que já passou mas que ainda precisa de um colo, ou que ainda irá passar. E a sua mãe vai te acolher novamente, tenho certeza disso. Mas se na pior das hipóteses não acontecer, como na família do Evandro Santo, não se preocupe, não é culpa sua e tem mãe que merece mesmo perder o(a) filho(a). Concorda?

Um beijo carinhoso.

Olhar nos olhos

março 16, 2009

Eu penso que ter tido a oportunidade de educar meus filhos foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. E ainda está sendo. Meu menino e minha menina serão por mim para sempre, ou, melhor, enquanto vivermos. Sinto isso, não precisa ser dito. Quando falam que não se pode ser amigo dos filhos, que pai e mãe devem manter um certo distanciamento e não conversar sobre tudo com os filhos, confesso que sinto uma certa maldade nisso. Coisa de gente que não consegue sentir esse amor espontâneo. Coisa de gente que não se permite, que se esconde, que se justifica o tempo inteiro.

Como não conversar sobre tudo com eles? Amo, apaixono, fico fitando eles sem desgrudar os olhos quando vêm me contar alguma coisa, seja dos namorados, seja dos ficantes, seja dos amigos, da escola, da faculdade, dos professores, simplesmente fico em êxtase por poder ajudar e aconselhar. Quero pegar no colo, cuidar. As vezes penso e converso com amigas e com o marido, que como não tive isso, não tive nem de perto essa proximidade com os meus pais, de alguma forma compenso por eles, agindo como eles não agiram comigo.

Fui criada no grito e com uma barreira intransponível entre mim e minha mãe, entre mim e meu pai. Minha mãe, quando vem ao meu encontro quando chego na casa dela, não me olha nos olhos. Isso me arrasa. Eu já aprendi a perdoa-la, por ela ser assim, justificando que o pai e a mãe dela foram assim com ela e portanto ela não aprendeu. As vezes adianta. As vezes não. Com meu pai também foi assim, com o agravante de minha mãe o ter afastado de mim e dos meus irmãos, pintando ele pra gente como um monstro. Quantas brigas presenciei, vendo meu irmão, um ano mais novo, gritando agarrado as pernas do pai e dizendo não, por favor não vá embora. Hoje sou mais mãe do que filha deles.

As vezes brinco com meus colegas e amigos me perguntando poxa, porque não nasci neta da Lia Luft, ou filha da Guru Marise? Eu faço diferente do que vivi, talvez hoje em dia, pois claro que no início do meu relacionamento, novinha, imatura, influenciada pela minha educação extremamente machista, também briguei na frente deles, também os afastei do pai deles, também fui submissa, também fui uma mãe e esposa mártir e sofredora, que só sabia reclamar. Eu vivi durante anos o modelo herdado da minha avó materna e da minha mãe. Sofri. Custou. Repeti o que era melhor pra mim inúmeras vezes, tentando sem desistir. Interiorizei. Mudei. Tive outras mães pelo caminho da vida. Amigas mães. Tias mães. Marido mãe. Filhos mãe também, e nossa!, todo dia aprendo com eles!

Será que é tão difícil o caminho do coração, esse que usamos todo o dia lá em casa? O caminho do meu é meio tortuoso, meio teimoso querendo se desviar e com algumas pedras rancorosas. Uma dificuldaaade para aceitar um pedido de desculpas? O do maridão é uma serra ensaboada, um tobogã, mas que tem uma porta de madeira, com algumas coisas que entalharam nela e meio pesada pra empurrar. O dos filhotes acaba pegando um pouco do jeitão da gente de tanto passar por esses dois caminhos. Mas estão em obras, moldando com seus operários, e tratando de cuidar do deles. Sabe que nossas obras de reparos começaram há um tempo também? Complicado, mas não impossível. E os filhotes estão sabendo ser pacientes e vibram (embora não divulguem) com cada pedacinho reparado dos caminhos. Contrataram umas equipes boas pra ajudar.

Já disse que amo vocês hoje? Não?! Então, eu te amo.