Meus amores,

Em nome das mulheres e dos meus vários amigos homossexuais, recorro ao email para propor à vocês uma reflexão.

Vejam abaixo a carta da presidência da ABGLT (Associação Brasileira de Bissexuais, Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais), Sr. Toni Reis, gay, que conheço pessoalmente, e que vive há 20 anos com seu companheiro, o americano David. Um rápido parênteses: há poucos meses eles conquistaram o direito de adotar uma criança, depois de anos de luta na justiça. É grande a probabilidade de que essa criança tenha nascido de uma gravidez indesejada, fruto da falta de consciência e educação de grande parte dos casais heterossexuais brasileiros.

Excelente pessoa, o Toni promove dia-a-dia dedicação e respeito à todos, através de ações, com sua influência política. Esse email enviado aos presidenciáveis, foi de tamanha importância para a sociedade em geral, para tentar despertar nos candidatos o verdadeiro papel que lhes cabe. A política é a arte de governar pessoas. Pessoas diversas, diferentes, com ideais diferentes, com sonhos diversos, e que não deveriam ser usados como metas infundadas das vergonhosas campanhas políticas que estamos presenciando. A palavra “partido” tem origem no latim (pars, partis) e significa rachado, dividido, desunido. Não tem como dar certo algo que começa com a desunião. Diante disso cumprirei meu direito de cidadã, que me obriga a anular meu voto.

A sociedade não muda sozinha, mas à partir de atitudes de pessoas como o Toni, que lutam pela igualdade entre as pessoas, considerando as inúmeras diferenças que possam existir entre elas. Cor de pele, gênero, sexualidade, direito sobre o próprio corpo são características dos seres humanos, e exemplos de motivos para alguns se acharem mais corretos, ou mais honestos que outros.

Tenho esperança. Sonho, como ele, com um mundo melhor para vivermos, sem violência, sem diferenças, sem depressão, que boa parte brotam da falta de educação para a cidadania, da perpetuação da ignorância, da proliferação do ódio. Ódio esse que, me desculpem, é promovido pelo partidarismo político e pelo fundamentalismo religioso. O Brasil é um estado laico, secular, isto é, estado no qual a religião não interfere. Ou não deveria.

Procurem refletir sobre isso: dominando o sexo das pessoas, aqui falamos de mulheres e homossexuais, o estado machista domina as famílias. As mulheres são as rainhas dos lares, e se assinam embaixo do que falam os políticos e religiosos fundamentalistas, incitam o ódio dentro dos seus próprios lares, fazendo brotar nos corações de seus maridos, filhos e filhas a discriminação às mulheres, o tabu do sexo e a repressão à sexualidade. E pior ainda será se essa sexualidade for diferente da heteronormatividade vigente.

Amo todos vocês como são. Sou mãe. E convido a fazerem sua parte: sejam o exemplo de amor e tolerância aos que te rodeiam.

E, finalmente, vocês sabem sobre a origem da palavra ‘entusiasmo’? Entusiasmo, vem do grego en + theos, literalmente ‘em Deus’. O Deus que está em todos nós, na nossa alma, que nos permite a vida e nos chama ao amor.

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 Carta aberta da ABGLT as candidaturas presidenciais  de  Dilma Roussef e José Serra

Prezada  Dilma e Prezado Serra,

A Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais – ABGLT, é uma entidade que congrega 237 organizações da sociedade civil em todos Estados do Brasil. Tem como missão a promoção da cidadania e defesa dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, contribuindo para a construção de uma democracia sem quaisquer formas de discriminação, afirmando a livre orientação sexual e identidades de gênero.

Assim sendo, nos dirigimos a ambas as candidaturas à Presidência da República para pedir respeito: respeito à democracia, respeito à cidadania de todos e de todas, respeito à diversidade sexual, respeito à pluralidade cultural e religiosa.

Respeito aos direitos humanos e, principalmente, respeito à laicidade do Estado, à separação entre religião e esfera pública, e à garantia da divisão dos Poderes, de tal modo que o Executivo não interfira no Legislativo ou Judiciário, e vice-versa, conforme estabelece o artigo 2º da Constituição Federal:  “São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.”

Nos últimos dias, temos assistido, perplexos, à instrumentalização de sentimentos religiosos e concepções moralistas na disputa eleitoral.

Não é aceitável que o preconceito, o machismo e a homofobia sejam estimulados por discursos de alguns grupos fundamentalistas e ganhem espaço privilegiado em plena campanha presidencial.

O Estado brasileiro é laico. O avanço da democracia brasileira é que tem nos permitido pautar, nos últimos anos, os direitos civis dos homossexuais e combater a homofobia. Também tem nos permitido realizar a promoção da autonomia das mulheres e combater o machismo, entre os demais avanços alcançados. O progresso não pode parar.

Por isso, causa extrema preocupação constatar a tentativa de utilização da fé de milhões de brasileiros e brasileiras para influir no resultado das eleições presidenciais que vivenciamos. Nos últimos dias, ficou clara a inescrupulosa disposição de determinados grupos conservadores da sociedade a disseminar o ódio na política em nome de supostos valores religiosos. Não podemos aceitar esta tentativa de utilização do medo como orientador de nossos processos políticos. Não podemos aceitar que nosso processo eleitoral seja confundido com uma escolha de posicionamentos religiosos de candidatos e eleitores. Não podemos aceitar que estimulem o ódio entre nosso povo.

O que o movimento LGBT e o movimento de mulheres defendem é apenas e tão somente o respeito à democracia, aos direitos civis, à autonomia individual. Queremos ter o direito à igualdade proclamada pela Constituição Federal, queremos ter nossos direitos civis, queremos o reconhecimento dos nossos direitos humanos. Nossa pauta passa, portanto, entre outras questões, pelo imediato reconhecimento da união estável entre pessoas do mesmo sexo e pela criminalização da discriminação e da violência homofóbica.

Cara Dilma e  Caro Serra

Por favor, voltem a conduzir o debate para o campo das ideias e do confronto programático, sem ataques pessoais, sem alimentar intrigas e boatos.

Nós da ABGLT sabemos que o núcleo das diferenças entre vocês (e entre PT e PSDB) não está na defesa dos direitos da população LGBT ou na visão de que o aborto é um problema de saúde pública.

Candidato Serra: o senhor, como ministro da saúde, implantou uma política progressista de combate à epidemia do HIV/Aids e normatizou o aborto legal no SUS. Aquele governo federal que o senhor integrou também elaborou os Programas Nacionais de Direitos Humanos I e II, que já contemplavam questões dos direitos humanos das pessoas LGBT. Como prefeito e governador, o senhor criou as Coordenadorias da Diversidade Sexual, esteve na Parada LGBT de São Paulo e apoiou diversas iniciativas em favor da população LGBT.

Candidata Dilma: a senhora ajudou a coordenar o governo que mais fez pela população LGBT, que criou o programa Brasil sem Homofobia, e o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT, com diversas ações. A senhora assinou, junto com o presidente Lula, o decreto de Convocação da I Conferência LGBT do mundo. A senhora já disse, inúmeras vezes, que o aborto é uma questão de saúde pública e não uma questão de polícia.

Portanto, candidatos, não maculem suas biografias e trajetórias. Não neguem seu passado de luta contra o obscurantismo.

A ABGLT acredita na democracia, e num país onde caibam todos seus 190 milhões de habitantes e não apenas a parcela que quer impor suas ideias baseadas numa única visão de mundo. Vivemos num país da diversidade e da pluralidade.

É hora de retomar o debate de propostas para políticas de governo e de Estado, que possam contribuir para o avanço da nação brasileira, incluindo a segurança pública, a educação, a saúde, a cultura, o emprego, a distribuição de renda, a economia, o acesso a políticas públicas para todos e todas!

Eleições 2010, segundo turno.

15 de outubro de 2010.

ABGLT – Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais

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Com carinho de mãe.

Nesse link está a entrevista de uma das minhas amigas/mães do GPH – Grupo de Pais de Homossexuais, e que eu falei que explicaria o que é. Fundado pela Edith Modesto, quando soube da homossexualidade do próprio filho e ao buscar alguém como ela, não conseguiu encontrar, por isso resolveu fundar esse grupo.

Quando meu filho me contou que é gay, sofri, chorei, fiz mil perguntas a ele do tipo “tem certeza filho, não é só uma fase?”, “mas você sabe porque aconteceu isso, será que é culpa minha, será que é culpa do seu pai?”, mas somente por poucos dias, graças a meu histórico de vida. No dia seguinte, e nessa hora eu tenho certeza de que conhecemos pessoas ao longo das nossas vidas porque precisaremos delas em nossa caminhada, liguei para um casal, que são dois meninos maravilhosos vivendo um relacionamento de mais de 10 anos e que conhececíamos a pouco mais de um ano, e contei pra eles. Eles me receberam em sua casa, me acolheram, e o que ouvi foi “… seja bem-vinda! Você verá que nossa classe é maravilhososa, levamos tudo numa boa, com bastante alegria”. A ajuda deles foi fundamental, pois eu tinha muito medo de contar para o meu marido e nessa hora eles me tranquilizavam duvidando que meu marido pudesse agredir de alguma forma nosso filho. Passou uma, duas semanas. Trocávamos depoimentos pelo orkut, eu frequentava o estabelecimento comercial deles, eles me emprestaram livros e panfletos explicativos, tudo escondido. Aqui cabe um parênteses: meu filho e minha filha de 13 anos foram maravilhosos, sempre muito unidos, tiveram uma paciência incrível comigo ouvindo meus choramingos e me ajudando a entender toda essa reviravolta nas nossas vidas (amo muito vocês dois, mas saber que vocês sabem e sentem isso é o mais legal disso tudo!). Acabei descendo ao fundo de um poço depois de 20 dias, quando contei para o pai deles. Sofri muito junto e chorava, mal conseguia trabalhar, preocupada com esse pai que como eu não foi educado para ter um filho gay. Jamais saberíamos lidar com isso sozinhos.

E foi buscando ajuda para poder apoiar meu marido que encontrei o GPH. O GPH é uma ONG que tem o grupo presencial e também um grupo fechado no Yahoo, onde as mães escrevem e todas lêem e comentam. Fui recebida de braços abertos, por muitas mães com respostas de carinho, com casos parecidos, outras em situações bem mais complicadas. Edith, que também é autora de dois livros que ajudam muito os pais no processo da aceitação de ter um filho diferente: “Vidas em Arco-Íris” e “Mãe sempre sabe? Mitos e verdades sobre pais e seus filhos homossexuais”, tem uma vasta experiência com mães, pais e filhos e com um jeitinho todo especial consegue contribuir sempre no processo de aceitação de tantas famílias.

Obrigada mães queridas por tudo o que aprendi com vocês! Maravilhosas!